Criatividade materna – uma visão da Phd Shelley H. Carson

Estudando se ser mãe pode nos tornar mais criativa, achei esse texto da Phd Shelley H. Carson, de Harvard. Sua visão sobre criatividade materna me inspirou!

Criatividade materna - uma visão da Phd Shelley H. Carson - Shelley
PhD. Shelley H. Carson

Hoje eu ia escrever um post sobre criatividade materna, em especial por que ser mãe pode nos tornar mais criativas.

Mas para isso eu precisava pesquisar, em primeiro lugar, se a ciência traz evidências de que isso de fato acontece.

Numa busca inicial, em português, não encontrei nenhum estudo brasileiro que falasse especificamente sobre isso. Tem vários sobre criatividade infantil, mas nenhum sobre a das mães.

Criatividade materna - uma visão da Phd Shelley H. Carson - pesquisa

Então passei a pesquisar sobre criatividade materna em inglês. Só que antes de ler os poucos artigos que encontrei, acabei me deparando com esse texto que apresenta a visão da pesquisadora Shelley H. Carson sobre o tema.

Ela é pesquisadora e professora de criatividade na Universidade de Harvard e eu achei que seria maravilhoso compartilhar o texto dela com vocês! Ele sustenta exatamente minha forma de ver a relação entre maternidade e criatividade!

Então, eu traduzi o texto dela, que está originalmente no site Psychology Today. E em breve eu posto mais sobre esse tema, depois que estudar as referências que encontrei!

Criatividade e Mães – Criatividade “grande-C” versus “pequeno-C”

Tradução livre do texto “Creativity and Mothers – Little “c” versus Big “C” creativity”, de Shelley H. Carson.

Mães estão entre as pessoas mais criativas do planeta. Muito tem sido escrito sobre a ideia de que a maternidade tende a diminuir as chances de uma mulher fazer ciontribuições substanciais ou importantes a um campo criativo, o que chamamos de criatividade “grande C”. E talvez seja realmente o caso.

O fato é que até o momento, há uma grande e significativa disparidade entre os feitos criativos de homens e os de mulheres que são reconhecidos. Por exemplo: Dos 835 Prêmios Nobel concedidos entre 1901 e 2018, apenas 52 foram recebidos por mulheres.

A maioria dos pesquisadores sugerem que pelo menos parte dessa disparidade de conquistas vem da escolha que as mulheres precisam fazer entre criação e procriação.

Criatividade materna - uma visão da Phd Shelley H. Carson - Tu Youyou
Tu Youyou, que recebeu o Nobel em 2015 pela cura da malária, também tem 2 filhas
Fonte da imagem

Diferentemente dos homens, mesmo em nossa era iluminada de (quase) igualdade de papéis de gênero, as mães ainda carregam o fardo primário dos cuidados com os filhos na maioria dos lares, gastando quase o dobro de horas por semana em deveres relacionados à criança do que seus companheiros do sexo masculino.

E muitas mulheres descobriram que elas ou precisam colocar seus interesses criativos em espera durante os anos de educação de seus filhos ou fazer a escolha de não tê-los.

A educadora e expert em criatividade Jane Piirto coloca a questão da seguinte maneira:

“A relação entre atrasar ter filhos ou ter filhos mais cedo e não ser capaz de criar de forma autônoma parece ser o cerne do problema para muitas mulheres criativas”

Jane Piirto

Apesar disso, muitas mulheres criativas continuam a produzir trabalhos criativos enquanto criam filhos, mesmo que a natureza desse trabalho criativo seja menos do tipo “grande C” do que poderia ser antes dos filhos.

A escritora Erika Hayasaki escreveu em um artigo na revista Atlantic: 

“Minha própria criatividade hoje em dia pode aparecer em um pensamento escrito e auto-corrigido no meu celular às 2 da manhã, ou poderia se manifestar num método de dar banho em três crianças pequenas sem que ninguém se afogue.”

Erika Hayasaki

O que me traz ao ponto principal que eu gostaria de aborda hoje: Maternar é um trabalho intensamente criativo, mesmo que ele não se enquadre numa escala de criatividade “grande C”.

Todos os dias as mães executam centenas de atos criativos. Assim como a escritora Erika Hayasaki encontra uma forma criativa de banhar com segurança três crianças pequenas, as mães de todos os lugares estão encontrando formas criativas de executar as tarefas cotidianas: não há um guia definitivo para guiar uma criança que está nos seus terríveis 2 anos de forma que pare de jogar sua comida no chão.

Uma mãe criativa inventa uma brincadeira e de repente a comida é um trem e a boca da criança é um túnel. As mães encontram formas criativas para fazer seus filhos de 5 anos escovarem os dentes e guardarem os brinquedos. As mães encontram jeitos criativos de deixar três crianças vestidas e na porta a tempo de pegar a van escolar.

Como você conforta uma criança de 10 anos que não conseguiu viajar com o time de futebol ou uma adolescente de 15 anos que acabou de levar um fora do namorado? As mães se engajam quase diariamente nessas sessões de terapia criativas de improviso.

Um outro aspecto da maternagem que é altamente criativo envolve comida e o que vem tradicionalmente chamado de “alimentar a família”, uma tarefa que, a despeito dos papéis de gênero modernos, geralmente ainda recai na mãe.

Os antropólogos Maryann McCabe e Timothy Malefyt mencionam que essa tarefa mudou consideravelmente do que costumava ser, digamos, nos anos 50. Porém, ela não é menos criativa hoje.

Ao mesmo tempo que alimentar a família talvez não envolva tanto cozinhar em casa hoje em dia, ainda requer uma criatividade considerável para combinar as preferências das crianças, os horários de todos da família, preocupações financeiras e itens alimentares disponíveis de uma forma que garaanta algum valor nutricional várias vezes por dia para sua prole.

Muito do trabalho criativo que as mães executam podem ser chamados de atos do dia-a-dia, ou criatividade “pequeno c”. Esses atos podem não receber o reconhecimento de um Pulitzes, Oscar ou uma Medalha Fields, mas como o psicólogo do desenvolvimento David Feldman diz, essas atividades criativas do “pequeno c” são tão importantes quando as do “grande C” para a “preservação, enriquecimento e continuidade da cultura”. As mães, por meio do seu trabalho criativo diário, estão preservando e enriquecendo a sociedade.

A todas as mães, muito obrigada pela sua criatividade.

Referências
  • Piirto, J. (1991). Why are there so few? (creative women: visual artists, mathematicians, musicians). Roeper Review, 13(3), 142-147, p. 146.
  • McCabe, M., & de Waal Malefyt, T. (2015). Creativity and cooking: Motherhood, agency and social change in everyday life. Journal of Consumer Culture, 15(1), 48-65.
  • Feldman, D.H. (1999). The development of creativity. In R. J. Sternberg, R.J. (1999). Handbook of Creativity. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

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