Por que a raiva nos deixa mais criativas

Estudos da Psicologia mostram que a raiva nos deixa mais criativas por algum tempo. Entenda como podemos usar essa emoção a favor da criatividade.

Estava lembrando de mil cenas de desenho animado… Tipo o Coiote jogando fora pilhas de planos frustrados em papéis amassados…

Ou o Pink e o Cérebro, sempre com ideias e tecnologias inovadoras a cada fracasso para conquistar o mundo. Foram animações que marcaram minha infância.

Em várias delas apareciam claramente cenas em que a raiva ou a frustração levavam à inventividade. Então, fiquei tentando lembrar se eu mesma já havia passado por algo assim.

Nesse momento, lembrei em especial de um poema que fiz após uma discussão com o meu pai. Depois, cheguei à conclusão que a própria Criativa Mãe tem uma boa dose disso.

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A raiva que me levou a estruturar a Criativa Mãe

“Muitos errados não fazem um certo”… Lembro da minha avó falar algo desse tipo quando eu era criança.

O sentido era outro, mas agora eu só consigo pensar em como tudo que deu errado na minha vida veio me trazendo para a criação e implementação de um projeto profissional lindo que está dando certo… E como a raiva foi essencial nesse processo!

A Criativa Mãe surgiu depois que a Sofia nasceu. Mas a ideia de trabalhar com criatividade acho que já estava comigo desde que eu comecei a me entender por gente.

Isso porque desde os 10 anos de idade eu sonhava em ser artista. Queria ser escritora. Amava escrever e todos elogiavam meus textos.

Meu avô era uma grande inspiração – homem simples, autodidata, poeta. Porém quando a gente é criança e nos ensinam a sonhar, dói muito quando cortam nossas asas.

E isso aconteceu comigo, mesmo que sem essa intenção. Eu podia gostar de escrever. Mas não podia fazer isso profissionalmente.

Desde então fui me situando, mas nos momentos mais difíceis da minha vida, a arte e a criatividade estavam lá. Eu não só consumia, mas também criava (e ainda crio) a poesia, a música, o desenho, a pintura.

Fui fazer Psicologia porque me encantava conhecer as histórias humanas – até hoje me vejo mais como uma “colecionadora de histórias” do que como uma terapeuta.

Quase larguei o curso na metade, mas persisti. Segui muitos caminhos. Fiquei irada quando percebi que nenhum deles era o melhor caminho para mim.

Por um tempo parecia que eu tinha “perdido tempo” neles. Mas criei a Criativa Mãe e vejo que cada um deles – e a raiva que senti – me deu os elementos necessários para eu fazer bem o que faço hoje – ajudar profissionais criativas a expressarem sua originalidade!

Mais recentemente, uma conversa familiar sobre meus rumos profissionais me trouxe essa sensação de raiva novamente. Não raiva das pessoas. Uma coisa mais ambígua, mais amorfa e abstrata.

Mas essa raiva que queimou no meu peito queima junto com o amor que tenho pelo que faço. Me deu ainda mais ímpeto para estar aqui, criando conteúdo embasado para vocês, tentando levar a fagulha criativa cada vez mais longe! Sou grata pela raiva que me foi trazida.

Mas o que é raiva, afinal?

A raiva é um sentimento que foi selecionado ao longo de nossa evolução como espécie. Como diz o texto Raiva e Criatividade, do Mundo da Psicologia, provavelmente as pessoas que sentiam raiva como nós sentimos tiveram mais chances de sobreviver.

Por exemplo, elas eram mais ouvidas, venciam mais disputas, caçavam e se protegiam melhor. Sabe-se que a raiva é uma sensação que acompanha um aumento da pressão arterial e da pulsação, dilatação das pupilas e propensão à agressividade.

Tudo isso pode ter nos ajudado a continuar existindo hoje como espécie. Claro que, em desequilíbrio, a raiva pode ser nociva para nós. Mas ela também tem suas vantagens, como é explicado nesse post da BBC.

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A relação entre raiva e criatividade

A raiva talvez seja a emoção associada à frustração que mais resulta em mobilização. E a frustração é a mãe da criatividade (por isso que a tristeza também costuma render bons frutos criativos, mas isso é tema para um outro post).

Pesquisei um pouco sobre isso e encontrei um TED Talks do Dean Kamen.

Ele é um cara que inventou braços mecânicos super tecnológicos, que revolucionaram a vida de muitas pessoas, em especial soldados feridos em batalhas que tiveram os braços amputados.

Isso porque os braços que ele criou permitiam precisão de movimentos, pressão adequada, sensibilidade aos comandos do cérebro. Incrível!

Toda a pesquisa e invenção dele foram baseadas na raiva que os cirurgiões sentiam ao ver ex-combatentes usando próteses toscas, quase inúteis.

A raiva tem a ver com revolta, com inconformismo. E isso é algo que pode transformar muita coisa por meio da criatividade!

Há estudos que mostram que às vezes uma pessoa recebe feedback irritado de alguém e começa a ter mais ideias (mas isso depende de outras variáveis, como a motivação da pessoa pela tarefa).

E também que pessoas que sentem raiva se tornam mais criativas por algum tempo.

O principal estudo que localizei sobre o tema foi o de Matthijs Baas e seus colaboradores, em 2011, em que grupos de pessoas precisavam escrever um texto criativo após serem orientadas a se lembrar de episódios de suas vidas em que se sentiram com raiva ou tristes.

Depois, eles foram submetidos a testes de criatividade. As pessoas que se lembraram de episódios de raiva foram consistentemente consideradas mais criativas do que as que se lembraram de episódios de tristeza.

A raiva ou irritação são emoções que aparecem quando nos frustramos. Frustração é algo que ocorre quando esperamos que uma ação nossa nos traga determinados resultados positivos e isso não acontece.

E já se sabe que o comportamento criativo aparece, entre outras situações, quando somos forçados a variar nosso comportamento, procurando outras soluções, já que o que tentamos fazer deu errado.

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Como usar a raiva a favor da criatividade

Tudo que nos angustia, nossa tendência é evitar. Isso é natural para todas as pessoas e até para outros animais.

Por exemplo, ir ao dentista. Ter aquela conversa séria. Dizer não. Injustiças sociais. Depredação ambiental. Violência. Coisas que nos trazem repugnância, inconformismo, raiva e tristeza.

Então seria possível usar a criatividade para mudar o que nos incomoda?

Sim! Mas para isso temos que pensar, de verdade, profundamente, no que nos angustia. Nem evitação, nem banalização. Reflexão.

Usar a criatividade a partir da raiva significa na verdade resolver problemas de forma criativa. Portanto, é necessário conhecer profundamente o que nos incomoda.

Para isso, é necessário muito estudo, muita reflexão e, boa parte das vezes, encontrar e trocar ideias com outras pessoas que sentem raiva pelos mesmos motivos que você.

Você imaginava que a raiva poderia ter um papel tão impactante em nossos processos criativos? Então, da próxima vez que ficar irritada, não grite, não extravase agressivamente: sente-se e crie!

Gostou de saber disso? Me conta nos comentários como a raiva influencia seu processo criativo!

Referências